Breathe, inhale, exhale…

A respeito da reportagem da Veja São Paulo do último fim de semana

25/05/2005 · 1 Comentário

Michel Foucault que, para quem não sabe, é um filósofo e pensador francês de peso, infelizmente já falecido, em entrevista afirmou, certa vez, que a discussão sobre as drogas está cercada de cinismo. Drogas existem desde que a espécie humana existe. O uso de drogas é tão inerente ao ser humano quanto qualquer outra de suas particularidades. Isso não significa que todo ser humano irá, inevitavelmente, fazer uso delas mas que, para qualquer ser existente, essa foi, é e será, sempre, uma alternativa possível. Por quê? Sejamos honestos: porque é bom. Mas mata! É mesmo? Velhice mata, acidentes matam, violência mata, doenças matam e, até onde já estudei sobre o assunto, não me parece que boa parte das pessoas que fazem uso de drogas ignore este fato. Muitas, inclusive, afirmam que optam por correr o risco e morrer a sua maneira, o que também é bastante humano. Alguém poderia garantir, com absoluta certeza, que as seqüelas do uso de drogas são piores do que um AVC, do que ter esclerose múltipla, ou a família assassinada numa chacina, ou a mão decepada em uma máquina, ou um ente querido morto em um acidente de avião? Alguém poderia me garantir que o uso de drogas traz maiores malefícios do que a tortura, a violência, a corrupção, a maldade, o egoísmo, a indiferença?

A idéia de que o uso de drogas tem aumentado me parece, de certa maneira, questionável. Será que aumentou realmente? Ou aumentou na medida em que o número de pessoas existentes neste planeta aumentou? Aumentou proporcionalmente ao crescimento populacional? Ou aumentou de fato? Uma série de pessoas que trabalham com redução de danos relativos ao uso de drogas em escola são categóricas em afirmar que o uso de drogas entre adolescentes, por exemplo, é muito menor do que se mistifica com essa febre midiática. Dizem eles, inclusive, que há um número bastante baixo de adolescentes que consomem drogas e que, entre esses, a imensa maioria faz esse uso por algum período de tempo, depois do que a experiência se encerra, SEM QUALQUER PREJUÍZO PARA O FUTURO DAQUELE INDIVÍDUO. Um pequeno número fará um uso continuado, que trará algum tipo de comprometimento para sua vida futura.

Enquanto todo esse alarde é feito em torno da questão das drogas, e enquanto a cena eletrônica me parece o bode expiatório do momento, encarnando o vilão da história, uma série de perguntas importantes ficam de fora da discussão:

1- Por que será que, se as drogas são entendidas como tão perigosas, já não se deu cabo delas? Afinal, se levarmos em consideração que um dos maiores defensores do rígido combate aos entorpecentes são os E.U.A., país capaz de invadir um outro, derrubar um regime, destroçar uma população inteira e capturar seu governante, mantendo-o humilhado e sem julgamento ou cobertura legal em uma base fora de qualquer jurisdição, o que impediria esses paladinos da moral e dos bons costumes de, por exemplo, bombardearem e destruírem a Colômbia? Ao menos assim, o problema da cocaína estaria em boa parte extinto da face da Terra.

2- Por que será que os veículos de comunicação se esforçam tanto por apontar que o perigo está lá fora, nas raves, nas festas, nos clubes, na música eletrônica? Já repararam como o inimigo está sempre em outro lugar? É sempre alguém ou alguma instituição que representa o outsider, o desconhecido, que encarna o papel de bandido a ser combatido para que “a paz possa novamente se instaurar entre nossas crianças”. Enquanto isso, a classe média obtusa e alienada dorme tranqüila, e se desencarrega de qualquer responsabilidade por tudo de ruim que acontece a sua volta. Há miséria no mundo? Há violência? As pessoas vivem com medo? É impossível estabelecer lugares e condições de convivência e amizade? Não se pode confiar em ninguém? Ah, mas isso é culpa das raves, do comportamento desviante dos jovens, das más influências que perseguem nossos filhos!!! Nós não temos nada a ver com isso. Tudo bem que tivemos dificuldades em termos conversas honestas com eles sobre a vida e sobre o mundo. Tudo bem que não conseguimos colocar limites e deixamos eles acreditarem que poderiam fazer o que quisessem. Tudo bem que, muitas vezes, os deixamos destinados a sua própria sorte mas… que nada!!! A culpa é dos outros. A culpa é das festas, dos amigos, da escola, dos djs, da música, dos traficantes… não temos qualquer responsabilidade por isso. Acabemos com todos eles e, certamente, estaremos a salvo e viveremos num mundo muito melhor.

3- Então toda violência do mundo existe por conta das drogas? Sei, e se pensarmos nas guerras, nas atitudes eugenistas, de limpeza étnica que varreram o leste Europeu na década de 90 e que dizimam a população africana há décadas, sem que ninguém se importe? E se pensarmos na massa gigantesca de migrantes que invadem as grandes cidades em busca de condições dignas de sobrevivência? E se pensarmos em todas as mulheres que são, a cada dia, violentadas, espancadas e humilhadas dentro de suas próprias casas? E se pensarmos nas crianças que sofrem maus tratos, ou que são abandonadas a seu próprio destino? E se pensarmos na maneira como os animais são tratados, extintos pelo bel prazer e vontade dos homens? E se pensarmos na forma como a natureza é descuidada? E se pensarmos na corrupção que acaba com os recursos de um país como o nosso, de cima a baixo, fazendo com que prevaleça QUASE SEMPRE o egoísmo dos próprios interesses. Bem, na medida em que o uso de drogas é o grande vilão, tudo isso parece tão inexpressivo, não? Por que será que a mídia formal e os governos interessam-se tanto por manter esta perspectiva sobre nosso estado de coisas?

4- Ah, não vamos nos esquecer daqueles que dizem que as drogas não são suficientemente coibidas em clubes, festas e raves. Bem, talvez devêssemos decidir que, a partir do julgamento de qualquer pessoas responsável pelas festas ou pela segurança das mesmas, alguém poderia ser retirado sob acusação de uso de drogas. Não importa se a pessoa se diverte por conta própria, se está dançando porque gosta disso, se freqüenta o lugar porque se interessa pela música. Qualquer atitude considerada suspeita poderá acarretar em remoção do local. Podemos, até mesmo, instituir exames rápidos, como o bafômetro, e outros que poderíamos emprestar da medicina esportiva, para termos certeza de que ninguém está dopado. Façamos com que essas medidas sejam instituídas legalmente e vamos varrer todos os maus elementos da cena eletrônica. Este é o tipo de mentalidade que dá origem à realidades fascistas, nazistas, concentracionárias, ditatoriais… Na medida em que se autoriza que qualquer pessoa seja privada de seus direitos por conta de uma suspeita de perigo, estaremos no caminho certo para o fim das liberdades individuais, evento que o mundo já presenciou algumas vezes e que não passou sem provocar enorme prejuízo e sofrimento em uma parcela grande da humanidade. Grandes catástrofes começam com decisões como essa, aparentemente banais e localizadas…

Enfim, meu argumento poderia se resumir a: drogas fazem mal para aqueles que não sabem lidar com elas, para aqueles que as transformam em sua única possibilidade de bem-estar, no centro de suas vidas. Grandes pensadores, artistas, filósofos, escritores, músicos fizeram, fazem ou farão uso de drogas. Da maioria deles, nem teremos notícias desse uso, mas apenas de suas contribuições brilhantes para a humanidade. Dos poucos que saberemos, porque terão se perdido em meio a essa experiência, teremos a ilusão de que são muitos e acreditaremos, se não formos capazes de parar para pensar e problematizar tudo o que ouvimos como verdades absolutas propagadas aos 4 ventos, que anunciam que seu meio está perdido, que os lugares que freqüentam são antros, que as pessoas com que convivem são marginais e que tudo que fizeram em suas vidas perdeu totalmente o valor, já que drogados são seres de 5a. categoria, que não têm nada a contribuir para nosso mundo…

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1 resposta Até agora ↓

  • Alê // 18/10/2006 às 2:11 am | Responder

    Minha linda, adorei esse BLOG! Nunca soube da existência dele. Só hj. que resolvi buscar algo sobre psicanálise e música eletrônica é q. te achei aqui. Amei!!!!!!!!!!!

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