Criticar a cobertura da Folha de São Paulo quanto ao assunto, que deu margem a uma série de mal-entendidos, não serve, aqui, para desmerecer a surpreendente ousadia em trazer a público um acontecimento que, não fosse pela exposição que teve na mídia, teria certamente passado desapercebido, ignorado e invisível como o próprio Manoel que, a não ser por seu cheiro e por ter se tornado um estorvo no bairro em que habitava, raramente parece ter sido notado por alguém. Contudo, através da reportagem, não fica claro esse percurso feito por Manoel, e nem quais responsabilidades devem ser atribuídas a cada instituição que participou decisivamente do ocorrido, até seu desfecho. Quem não entende minimamente das competências das áreas de saúde mental e de desenvolvimento social fica com a nítida impressão que ele foi internado pelas mesmas pessoas que fizeram sua remoção da praça, o que não é verdade. Algumas perguntas que me parecem fundamentais, bem como algumas reflexões, ficaram de fora da pauta. Antes contudo, não posso deixar passar, nem ao menos de relance, o disparate do senhor secretário municipal de Assistência e Desenvolvimento Social da Prefeitura em falar, categoricamente, de maneira induzida, ingênua ou descuidada, que o objetivo da secretaria é o de “institucionalizar todos os moradores de rua”. Não é possível que alguém que ocupa cargo de tamanha importância não saiba o peso que essa palavra tem, especialmente no campo da saúde mental. Me explico: em nosso país, desde a década de 80, sob a influência do movimento de Reforma Psiquiátrica em vários países do mundo, tem-se tentado criar uma nova maneira de entender a loucura, o louco, bem como de pensar um tratamento para ele. Nesse campo, já se conseguiu vitórias significativas, tanto do ponto de vista da criação de instituições alternativas, como do estabelecimento de medidas jurídicas contra a criação e perpetuação da existência dos manicômios, e ainda do estabelecimento de políticas públicas e leis que instituam o cuidado em saúde mental de uma maneira mais humana, que considere o louco como sujeito, como cidadão, alguém com voz e direito de decidir sobre seu destino. Falar em institucionalizar, nesse contexto, é acenar com uma idéia a qual todo o campo da Reforma Psiquiátrica no Brasil vem tentando extingüir, há mais de 20 anos. Mas vamos às indagações: A secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social é responsável pelo cuidado com os moradores de rua. Até onde pude saber do assunto, são eles que abordam os moradores de rua, oferecendo aos mesmos a possibilidade de não ficar ali, de ir para um albergue, ao menos para pernoitar. A idéia seria oferecer a essas pessoas alguma opção frente à precária condição em que se encontram já que, é de se supor, pouquíssimas pessoas devem estar nas ruas por pura vontade. Não poderia entrar no mérito da qualidade das opções oferecidas, até por ter consciência de que estamos num país – e num contexto histórico – no qual a massa invisível de excluídos é a última das preocupações de todas as sociedades. Assim, não seria de se esperar que houvesse muito a ser ofertado para gente por quem ninguém se responsabiliza. E isto é uma crítica, não um estar de acordo. Um albergue é pouco. Mas, por outro lado, é alguma coisa e deve ser melhor do que a rua, ao menos na suposição daqueles que vêem o calor de suas casas nesses dias friorentos como o lugar mais seguro e livre de perigos deste mundo. Também não saberia dizer sobre a maneira como essa abordagem é realizada e até que ponto a vontade dos abordados é ouvida e levada em consideração. Eles podem optar em permanecer na rua? De todo modo, se Manoel foi abordado por agentes dessa secretaria e se concordou em ir para um albergue, não há nada que me pareça fora do lugar nisso. Contudo, por que houveram dez tentativas de que ele fosse levado, se ele estava de acordo? Podem argumentar: “ah, porque ele é louco e um louco não tem condições de tomar esse tipo de decisões. Então, nós, que sabemos de que ele precisava, decidimos por ele e insistimos em nossa decisão.” Bem, aí começa o embroglio… que fez com que fosse possível confundir as ações dessa secretaria com as do serviço para o qual ele foi levado e até com as intervenções do hospital psiquiátrico no qual foi internado e que têm a ver com uma postura comum entre as três instituições: todos partiram do príncipio de que sabiam o que fazer com Manoel, como se ele fosse uma coisa, que não tivesse nada a dizer sobre o assunto. E, na medida em que justificam esse abuso do poder de julgar que se pode saber melhor do que o outro o que se passa com ele, a partir de uma idéia de que esse outro é doente, o tal embroglio ganha contornos sombrios…
Categorias: Azedume · Intelligentsia
Etiquetado: doença mental, exclusão, exclusão social, Folha de São Paulo, hospital psiquiátrico, institucionalização, loucura, Manoel Menezes da Silva, morador de rua, moradores de rua, preconceito, saúde mental, São Paulo, secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social, Vila Nova Conceição







0 respostas Até agora ↓
Ainda não há comentários... chute o balde preenchendo o formulário abaixo.