(…ou, recomendações a uma grande amiga)
A selva é aqui mesmo, em São Paulo, no dia-a-dia, em nossas relações mais cotidianas e íntimas. Quem quer que se disponha a estar com outras pessoas sabe o quanto isso é difícil. O bom e velho Freud dizia o quanto educar e psicanalizar são missões quase impossíveis. Eu juntaria a elas: relacionar-se.
Qualquer um que esteja vivo (ou ao menos que assim se entenda) é confrontado diariamente com a obrigação de lidar com os outros. Mesmo quem se tranca em um quarto escuro boa parte do tempo é solicitado pelos outros e com eles se relaciona. Em um livro, em uma música, na tela do computador repleta de alguma informação: ali está algum outro, em cada objeto, em cada aspecto de nossa vida.
Sartre já dizia que o inferno são os outros. Nada mais preciso. Pois os outros nos tiram de nossa ilusória tranqüilidade, nos enchendo de pedidos que temos que atender ou aprender a negar. Os outros nos trazem problemas: se são cruéis e mesquinhos, nos fazem doer, se são queridos e afetivos, nos botam medo de perdê-los. Não há como ficar indiferente às pessoas, por mais que se tente. Não se enganem com isso, até a pessoa mais blasée da face da terra, em algum ponto, é sensível a quem a cerca.
E, como este post não se pretende ser nenhum tipo de pregação psicologizante, filosofante e/ou um arremedo de sessão de cartas de revista feminina, em que o sabichão de plantão explica o que e como fazer com tal ou qual problema, dando a falsa impressão de que existe receita para isso e que só o estúpido do leitor é que ainda não sabe, já que ele, autoridade no assunto, sabe tudo de tudo, vamos ao meu manual de sobrevivência na selva, que vale o quanto pesa. Ou seja, quase nada, já que as palavras que circulam pelo mundo virtual carecem de consistência e que as minhas se prestam apenas a lançar pensamentos ao ar.
“Querida grande amiga,
Se você chegou até aqui, nessa difícil tarefa de lidar com os outros e, principalmente, com uns tantos outros tão próximos, queridos e espantosamente cretinos e cegos (momento de ira meu, que tomo as dores, sempre), é bom que você saiba que a vida não há de te dar mole agora. Não é porque você passou por uma barra horrível e que praticamente zerou a cota de dívidas, karmas ou pecados que teria a pagar nessa sua vida (sorte de quem acredita nessas pataquadas, não?), que o tal Deus – ou quem quer que seja que tenha tido esse senso de humor negro de colocar-nos nessa fria – vai afrouxar as rédeas com você. Não, minha cara, o tal do amor dói porque, sempre que ele é dedicado a uma outra pessoa, esse outro ser ignóbil certamente primará por não se dar conta do que conquistou até que o tenha perdido. E, ainda que saibamos disso, uma certa ironia do destino ou de nossas próprias escolhas nos fará repeti-lo indefinidamente.
Se existe alguma regra para a vida e para o amor, talvez seja essa: há um descompasso, um desencontro perpétuo que tentamos, em vão, contornar. Perseguimos o amor como se fosse o ar que respiramos, depositamos tudo nele, perdemos tudo em uma outra pessoa. Esfacelados, com sorte, damo-nos conta de que só temos a nós mesmos e que, se tivermos que construir qualquer coisa em bases sólidas, seremos, sozinhos, os depositários de nossas expectativas e felicidades. Assim, teremos responsabilidade pelo que quer que nos ocorra e não culparemos a mais ninguém por nossas desgraças. Ao menos, a maior parte delas. E, se encontrarmos algum outro que nos acompanhe em parte do caminho, não pediremos dele mais do que ele pode dar. Ou bem, tentaremos não fazê-lo.
Que coisa mais louca essa expectativa que criamos de que alguém nos salve, de que a redenção esteja em uma outra pessoa, como se uma relação, uma palavra, um gesto fossem dar conta de tudo. Tudo o que se perdeu, tudo o que foi frustrado, tudo o que doeu, tudo o que não vingou. Coitado do infeliz que chegar perto em uma hora dessas. Vai ser engolido pela fantasia do príncipe encantado e ai dele se não responder à altura. A pior parte, amiga: uma hora dessas é, praticamente, todas as horas de todos os dias em que esperamos encontrar alguém. É quase um desespero, é perder a noção de si e se jogar em uma cruzada em que só um outro seja a solução.
Nada disso, querida amiga. Depois de todo o perrengue desse ano, se teve uma coisa que você parece que ganhou foi a si mesma, seu talento, suas qualidades, suas capacidades. Nada de fazer a princesa frágil em apuros, que depende totalmente do gajo para ter uma vida com sentido. Isso é coisa antiga que, infelizmente, ainda gruda nas nossas orelhas, nos nossos sonhos e nas pressões cotidianas que sofremos, feito um carrapato. Como se ninguém tolerasse que alguém tentasse algo diferente. As pessoas não agüentam que você não se coloque na mesma merda que elas se puseram, na maioria das vezes sem pensar. Querem que você pague, como elas, por todo o tipo de bobagens que ouviram na vida sobre o que é certo uma garota querer, esperar e fazer. E, se você tentar sair do trilho, vão te esmagar com unhas e dentes de abutres, até que você sucumba. Não se engane, essa gente só te quer tão infeliz quanto elas são.
E não se enganem os homens também, que a coisa não é nada diferente com eles, oprimidos por um monte de ‘tem que isso, tem que aquilo’.
E aí, você que ganhou a si mesma, que descobriu que é muuuuuuito mais do que isso, respira aliviada entre planos, expectativas, possibilidades. Todo um mundo que se abre. Com o seu talento, a coisa vai longe. Então, na hora que a saudade apertar e a vontade de partilhar de um pouco de calor humano aparecer – e antes de cair de novo na armadilha de que algum príncipe há de te salvar disso e que você tem que encontrá-lo imediatamente, e antes de desperdiçar seu tempo e suas qualidades com qualquer boçal que apareça e, principalmente, antes de começar a duvidar de si mesma, imaginando que só quem tem alguém é que é feliz e que o segredo da felicidade está aí – bem, antes disso tudo, cerque-se dos seus amigos que te gostam tanto. Não é a mesma coisa, eu sei. Amigos são ótimos, mas não dão conta de umas tantas coisinhas que são para lá de necessárias (nesses casos, dildos e outros brinquedinhos são uma benção, não sejamos hipócritas e puritanas a essa altura do campeonato). Em todo o caso, amigos e outros acessórios quebram um galhão. Mas também não salvam a pátria.
Amores, amigos, família, ninguém nos salva. Espero que tenha aprendido isso, para poder aproveitar de cada um o que cada um tiver para dar. Nem mais, nem menos. Normalmente é bem mais do que imaginamos e bem menos do que queremos, nesse xorôrô em que ficamos nos lamentando de tudo o que não temos e achamos que os outros deveriam nos dar. Quem disse que o mundo nos deve alguma coisa e tem que pagar nossas contas?
Enfim, cara amiga, se tudo o mais falhar, dê uma olhadinha no espelho. De frente. Dê uma olhadinha de cabeça erguida. E, se você não for capaz de enxergar ali as coisas que fez, aquilo que pode, os valores que tem… e se nada disso puder te lembrar do que se trata… e se você mesma não puder ser conquista suficiente… e se tanta qualidade e beleza não se refletirem no espelho… Bem, querida, então a selva terá te alquebrado mais do que pensei e essa relação terá deixado em você uma marca pior do que pareceu a princípio e o caminho será mais longo, tortuoso e difícil. Mas, em todo caso, haverão fatos, atos e pessoas por você. Não se esqueça disso.”