… quem não conhece e gosta mesmo de música, deveria conhecer. Porque Underground Resistance é da segunda geração do techno de Detroit que, para quem não sabe, é onde nasceu o techno o que significa, em outras palavras, onde nasceu a música eletrônica (juntamente com o house de Chicago). Sim, Kraftwerk aconteceu antes e, na Europa, aconteceram coisas que também criaram a M.E. mas, no essencial, uma boa parte do que se ouve hoje e se chama de música eletrônica – do melhor ao pior – tem sua raiz no techno de Detroit: do minimal que se acha novidade aos breaks e electros sujos que tiram sua força de Drexciya e afins, passando pelo house que, de Chicago, influenciou profundamente as primeiras gerações do techno e vice-versa.
E, antes que alguém já comece a torcer o nariz para a palavra música eletrônica, é bom que se saiba que M.E. é muitíssimo mais do que aquele baticum ridículo que toca nas rádios farofeiras que escutamos no dia-a-dia e, também, é beeeeem mais do que aquilo que escutamos na maior parte das pistas de dança, saindo das pickups, dos players, dos macs da maior parte dos produtores e djs deste ou de outros países. Até mesmo na música eletrônica pop (porque, sim, existe uma música eletrônica erudita altamente sofisticada, experimental, interessante, revolucionária, da qual o agora saudoso Karlheinz Stockhausen é apenas um dos excelentes exemplos) há músicas e músicas, estilos e estilos, produtores e produtores das mais variadas qualidades.
Então, para quem escuta a palavra techno com suspeita, eu recomendo que escute Underground Resistance. É uma atitude pedagógica e pode até mudar sua vida. Sim, porque boa música sempre foi feita com a intenção de mudar a vida das pessoas, e U.R. se pretende, mais do que um coletivo musical, um movimento revolucionário, de profundo engajamento social, político e artístico. Pois, ouvindo-os, você se dá conta de que o techno que começou em Detroit começou na cidade da Motown, em que surgiram Marvin Gaye, Jackson 5, Diana Ross e as Supremes, Stevie Wonder, entre tantos outros. E então você percebe que o techno tem uma profunda ligação com a música negra americana, com o blues, o soul, o jazz.
Derrick May, um dos papas do techno da primeira geração, nomeou-o como uma junção entre George Clinton e Kraftwerk, ou seja, daquilo que há de mais interessante nessa música negra e a alta tecnologia que possibilitou que um bando de garotos sem eira nem beira, em uma Detroit decadente, sem emprego e sem perspectiva de vida, pudessem fazer música com aquilo que a tecnologia lhes possibilitava e lhes facilitava, no lugar dos instrumentos acústicos. Criaram, então, um high tech jazz, não por acaso o nome de uma das músicas mais maravilhosas do Underground Resistance. Nesse ponto, dá para entender que o techno, na sua origem, é jazz. E da melhor qualidade.
Me perdoem os puristas do jazz de plantão, mas o jazz também nasceu como uma música encarnada, dançante, para ser vivida no corpo, cantada, sentida, para passar uma mensagem, dar voz a um povo excluído, fazer falar, dançar, movimentar-se. O jazz foi uma possibilidade de catarse, de sonoridade, de criar lugar através da música e não essa coisa besta que se pretende ser de elite hoje em dia, em que todo mundo faz que entende, balança a cabecinha e espera um show de virtuosismo, pagando fortunas pelo convite. O jazz se elitizou, cooptado por um sistema destitui tudo de seu potencial revolucionário, de inclusão e de questionamento. Essa potencialidade explosiva, dançante e musical teve que se esparramar por outros lugares. Um deles foi a criação da M.E. O techno bebeu dessa fonte. O techno é jazz. Um jazz high tech.
Quem assistiu Underground Resistance ontem no Nokia Trends entendeu isso ao limite. Pode perceber que o techno é música, da melhor qualidade. É jazz, tem swing, consegue ser ao mesmo tempo malemolente e quadrado como os bons technos costumam ser. Tem riqueza, variedade, sutileza, camadas, informações e beleza, sobretudo beleza. Ah, e dá para dançar em uma pista de dança. Muito. E sorrindo.
Long live the underground…







5 respostas Até agora ↓
Ivan LP // 09/12/2007 às 4:48 pm |
não mudaria uma vírgula
Ainda sobre o Nokia Trends… « Breathe, inhale, exhale… // 11/12/2007 às 3:30 pm |
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Andre // 17/12/2007 às 4:08 pm |
Seu texto é fenomenal. Vou copiar ele no meu blog com todos os creditos merecidos, ok?
Perdido // 17/12/2007 às 7:10 pm |
muito bom o texto!
disponibilizei no meu blog o cd q os caras distribuíram pra galera durante o show!
alerib // 17/12/2007 às 11:49 pm |
Obrigada pelos comentários.
Agora, Perdido, você foi um dos sortudos que pegou o cd? Caramba, eu estava colada na grade e não consegui…
Vou baixar do seu site, então.