Bem, o ano está praticamente acabado, embora ainda estejamos na metade do mês de dezembro. O ano termina antes por aqui. Findos os amigos secretos da firma, os encontros com as dez mil turmas e pessoas que decidem – todas – que querem te ver antes de 2007 acabar, embora não tenham se preocupado nem em saber se você estava vivo durante os outros 365 dias, findas as confraternizações botecais, as cervejas, as frituras, findas as trocas de presentes protocolares, tem início agora um período de pouco mais de uma semana de franca tortura.
Pois, se já é difícil agüentar o calor na cidade de São Paulo, onde raramente venta, pois estamos sitiados por prédios, bem como o trânsito que se tornou, no último mês, ainda pior do que usualmente, o que representa um feito digno de nota, o que dizer dos dias em que a muvuca finalmente se acalma e cada grupo se enfia em sua própria casa, a se empanturrar com perus, farofas, tenders, castanhas, nozes, doces, panetones e um sem fim de comidas e bebidas que dariam para alimentar essa mesma família durante um mês inteiro, não fosse o exagero natalino? E não há porque se preocupar já que, de fato, todos se alimentarão da mesma comida por dias a fio, as sobras do Natal até o ano novo, as sobras do Ano Novo até sabe-se-lá quando. Uma pajelança.
Todos farão suas compras até o último segundo, o que deixará shoppings lotados e intransitáveis até dia 24/12. Depois, todos se recolherão e celebrarão com suas famílias aquilo que durante o ano todo nem se preocupam em exercer: solidariedade, fraternidade, amor ao próximo… Ou nem chegarão a isso, entupidos de peru até a última garfada e bêbados de vinho, suados, inconvenientes, levantando a poeira de todas as desavenças que deveriam ter permanecido enterradas, dando uns aos outros motivos para odiarem-se e evitarem-se até o Natal do ano seguinte quando tentarão, de novo, criar uma família feliz que não existe, em nome de sabe-lá-o-que.
As ruas lotadas pelas pessoas que brigam, se xingam e se espancam no trânsito será tomada de uma estranha calmaria entre o Natal e o Ano Novo e a cidade será abandonada por todos que tenham essa possibilidade e que terão a mesma idéia, que julgarão exclusiva e genial: descer para a praia. Com isso, as estradas ficarão abarrotadas de carros lotados de gente, de famílias com suas crianças gritonas, seus cachorros, suas vovós no banco de trás e uma quantidade de bagagens no porta-malas que serviria praticamente como uma mudança, não como o necessário para alguns dias.
Muita gente vai ficar presa no gigantesco engarrafamento do Ano Novo, no calor dos carros, passando mal, sem água e sem banheiro num raio de quilômetros. Passarão a meia noite na estrada e estourarão uma champagne quente, que beberão com o resto frio do peru e da farofa de Natal, compartilhados com o motorista ao lado. Convivência obrigada. Na praia, há de faltar água, luz e pãozinho na padaria. Dificilmente será posssível encontrar um lugar paradisíaco e exclusivo. Se tanto, um lugar para o guarda-sol já estará de bom tamanho. Muita gente que não toma sol o ano inteiro se estatelará na areia e terá queimaduras horrendas, ficando vermelho, ardido e intocável por dias, outros se afogarão no mar, outros ainda passarão todo o tempo aumentando suas não-prósperas panças com muita cerveja e outras nojeiras que o verão no litoral nos propicia.
Alguma modinha será lançada. Haverá o hit musical do verão que, tocado à exaustão, colará em todos os ouvidos feito praga, sem piedade nem dó. Certamente será uma música horrorosa, não há porque se preocupar com qualidade nessas horas, quando o importante é “curtir muito”. Haverá o sorvete do verão, o prato do verão, a praia do verão, o hype do verão, a moda do verão, a festa do verão e tudo o mais, dando a impressão de que algo extraordinário está acontecendo e que temos todos que participar, se não quisermos ficar totalmente por fora. Os programas de TV reforçarão essa impressão com matérias requentadas que são sempre as mesmas e que parecem, contudo, as maiores novidades. Jornais e revistas farão o mesmo. E todos nós compraremos aquela canga, aquele biquini, aquele sorvete, aquela bebida ou qualquer outra coisa ridícula que nos dará a sensação de fazermos parte da comunidade humana em alto estilo. É necessário ser “in”.
São Paulo será uma cidade paradisíaca a partir do Natal. Tudo vazio, ruas transitáveis, cinemas sem fila, restaurantes sem fila, shoppings sem fila…. A fila desce a serra junto com o paulistano. É uma praga que o acompanha onde quer que ele vá.
À exceção da noite de Ano Novo, em que uma multidão toma a avenida Paulista para, normalmente embaixo de chuva, se espremer e se acotovelar a fim de ver os shows bregas que fazem uma festa chata, suja e com hora para acabar, tudo o mais será de um sossego assustador, que dará uma leve esperança de que a coisa vai melhorar e de que a cidade poderia ser sempre assim. Faremos milhares de promessas de Ano Novo que começaremos a descumprir no dia seguinte.
Enrolaremos até o Carnaval para o ano – já atrasado – finalmente começar e, mais gordos, mais torrados pelo sol e com ressacas maiores devido aos excessos do verão, veremos que 2008 se inicia exatamente onde 2007 acabou. Nenhum milagre, nenhuma mudança, nada extraordinário aconteceu com essa alteração no calendário mas, de todo modo, esqueceremos essa constatação rapidamente, pois julgamos ser melhor viver na ignorância de falsas ilusões, de perus, presentes, praia lotada e congestionamentos recordes do que frente à amarga realidade de que, entra ano, sai ano, e poucos de nós fazemos realmente algo de significativo por nós mesmos e pelos outros. Poucos pagam o preço caro da vida. Poucos se responsabilizam por ela. A maioria vai no embalo – de um Papai Noel de mentira, do show da virada da Rede Globo, ou do sambão e do axé carnavalescos. A maioria segue o bloco. E não sabe nem para onde.






