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MASP

21/12/2007 · Deixe um comentário

Já é de conhecimento público a crise que o MASP enfrenta há um bom tempo: exposições medíocres e apelativas, luz cortada, dívidas astronômicas… O roubo, ontem, de dois de seus quadros mais valiosos, parece ser apenas mais um episódio na história desse museu cercado de equívocos e falcatruas por todos os lados.

Episódio lamentável, em um museu sem alarmes, com obras sem seguro, mostrando o quão mambembe a antiprofissional se pode ser quando se junta anos e anos de má administração com funcionários com mentalidade tacanha e um conselho repleto de membros omissos e coniventes.

Julio Neves se perpetua na direção do museu há décadas. Autoritário e retrógrado, presta um desserviço ao MASP, tornando-o cada vez mais precário, carente de pessoal qualificado (já que os bons quadros desistem, pressionados pela mediocridade das pessoas que, há décadas, ocupam seus lugares de pequenos poderes com voracidade canina), além de propagador de uma política de exposições caça-níqueis, daquelas que só se pretendem chamar público e que, com sua concepção curatorial decidida pela fulaninha do almoxarifado, prestam também um desserviço à qualquer conceito de exposição que se preze.

O MASP não tem qualquer personalidade, qualquer linha, qualquer proposta há anos. E seu diretor e outros funcionários do ‘alto escalão’ parecem preferir penhorar obras importantes (o que é proibido por lei e não chega a conhecimento do público) em troca das dívidas que só fazem crescer, manter as obras do acervo em uma condição de conservação precária e duvidosa, colocando em risco um patrimônio cultural de nossa cidade e de nosso país, descaracterizar as linhas e o projeto magnífico feito por Lina Bo Bardi para o museu (onde estão os cavaletes transparentes onde as obras ficavam, majestosas, flutuando no espaço de exposição?), gastando tempo e empenho em alugar o vão livre para festas granfinas e em disputar quem acompanha as obras solicitadas por exposições internacionais. Isso sem mencionar o ridículo projeto de Julio Neves para o prédio adquirido ao lado do MASP (que está caindo aos pedaços), de construir ali uma torre monstruosa e gigantesca, em um anexo do museu que seria praticamente um shopping center. Do indivíduo que projetou a Daslu, que tipo de mentalidade poderíamos esperar, não?

A contratação de Teixeira Coelho como curador, recentemente, veio preencher um rombo de anos sem uma política em relação às próprias obras, às exposições, e até às artes de maneira geral. Francamente, não imagino o que possa ter feito alguém de tanta qualidade aceitar mergulhar nesse ninho de cobras. De todo modo, parece que Teixeira vinha realmente tentando dar uma cara, uma personalidade para o MASP, reinserindo-o, novamente, no circuito cultural da cidade. Não deve ser fácil.

Museus e espaços expositivos passam apuros em nosso país, pois a cultura ainda é entendida como perfumaria e, excetuando-se esquisitices como aquela mostra do corpo humano na Oca, por exemplo (filas enormes, sucesso de público, muitas páginas de jornais e revistas), que ocorreu em São Paulo durante este ano, parece que o brasileiro não se dispõe muito a encontrar-se com a arte, como se a mesma não lhe dissesse respeito, como se fosse inacessível. Não posso concordar que seja, pois parece-me mais uma questão de hábito (da arte, aprende-se com a convivência, com o contato) e da falta mesmo de uma política cultural que propicie o acesso e a freqüentação de museus, espaços e galerias do que de qualquer outra coisa. Com isso, todos esses espaços ficam à mingua. E as pessoas perdem a oportunidade de transitar por um meio incrivelmente enriquecedor.

Assim, não é de espantar a situação calamitosa em que o MASP vive há anos. O que é de espantar é a extrema gravidade de sua falência, a deterioração a olhos vivos, o silêncio da imprensa (com raríssimas exceções, dentre as quais esse artigo de Mario Cesar Carvalho, de 2005, que ainda me enche de orgulho), dos políticos e da sociedade em geral, que são capazes de ver um de seus mais valiosos tesouros ser dilapidado à luz do dia, por gente corrupta e de má-fé, sem darem sinais de indignação.

O roubo de ontem? Parece-me que até que demorou para ocorrer, dadas as circunstâncias. No entanto, é verdadeiramente uma lástima. Uma lástima porque nos priva do contato e da convivência com duas obras fantásticas. Uma lástima porque ajuda a sangrar mais fundo o que já está no limite. Uma lástima porque expõe a amadorice dos dirigentes do MASP que, em pleno século XXI, não buscaram usar do dinheiro que passa por suas mãos para investir em segurança. Uma lástima porque é possível que haja gente do próprio museu envolvida. Uma lástima porque expõe nosso país, no exterior, como um lugar perigoso para se emprestar obras de arte para exposições (se o maior museu da américa latina é essa piada,o que esperar?). Uma lástima porque sustenta um mercado paralelo no qual roubar é justificado, desde que seja para sabe-se-lá-quem botar as mãos em algo que não lhe pertence, provando que o dinheiro compra, mesmo, qualquer coisa. Uma lástima porque, no fim das contas, o roubo ainda serve como cortina de fumaça para tirar a já quase inexistente atenção das pessoas desse roubo cotidiano pelo qual o MASP passa, fazendo-nos acreditar que apenas o que aconteceu na madrugada de terça para quarta-feira é muito grave.

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