Breathe, inhale, exhale…

Esse tal de Big Brother…

23/03/2008 · 3 Comentários

Capitulei… e confesso ser uma espectadora voraz de tudo quanto é porcaria televisiva. Não apenas espectadora, como daquelas que descobrem em primeira mão: assitia à Queer eye… e American choppers antes mesmo de boa parte de meus conhecidos saber de que se tratava. E, pioneira dos reality shows, testemunhei a bizarrice de Supla e Alexandre Frota no primeiro e insuperável “Casa dos Artistas”.

Esse tal Big Brother sempre captura um tanto da minha atenção em algum momento. Não tanta que chegue a me dedicar a isso, como várias pessoas que lhe atribuem demasiada importância mas, em todo caso, sempre atenção o suficiente para me por perplexa. Na verdade, não é tanto mérito do programa – em realidade bastante sem graça, com seu formato pasteurizado de telenovela, coisa que nós brasileiros fazemos bastante bem – mas a perplexidade advém dos comentários e discussões decorrentes do mesmo que, em geral, chegam a me assustar.

Pessoas que, no mais, são completas desconhecidas para a grande maioria da população, tornam-se seres aos quais todo e qualquer cidadão sente-se capaz de atribuir verdades. Todos sabem que fulana ou ciclana é gente boa, falsa, honesta, verdadeira, coerente ou qualquer outro adjetivo desses que deveríamos economizar apenas àqueles que nos são tão íntimos. Ou nem a eles. Um número de pessoas absolutamente banais, comuns e medíocres tornam-se, do dia para a noite, personagens de si mesmos, aberrações, encarnações do bem, do mal, da pobreza… julgados como se fossem uma entidade única. E, mais estranho ainda, como se fossem apenas e precisamente aquilo que uma série de câmeras e edições são capazes de mostrar em um par de meses. Uma vida inteira reduzida a uns tantos dias, festas e expressões. Será que somos assim tão miseráveis que possamos nos tornar tão pouco?

E, mais estranho ainda, pessoas que nem conhecem essas pessoas passam dias e dias discutindo a seu respeito, idolatrando-as, venerando-as, defendendo-as como se soubessem de quem se trata. E nada, absolutamente nada do que façam serve para mudar suas opiniões. É uma espécie de hipnose coletiva… todos emburrecidos por uma imagem, capturados por imagens que são pouco mais do que ar, do que nada, tamanha sua inconsistência. Que vida sem graça, sem sentido e sem objetivo, para fazer com que tantas pessoas se apeguem com unhas e dentes a algo assim tão diáfano.

Nesse tal de Big Brother tivemos um cara que apenas fez a classe médica corar de vergonha em ter devassada dessa maneira sua truculência ao tratar do outro. Pois, se tomamos o tal Marcelo como um exemplar típico entre os psiquiatras, temos que reconhecer que esses são pessoas brutas, grosseiras, instáveis e paranóicas, capazes de pisar e esmagar quem quer que seja por uma simples cisma. Com os reis na barriga, donos da verdade, fazem parecer que sabem tudo aquilo que ignoram, neles mesmos e nos demais, fingindo autoridade para subjugar os outros com suas balelas. Um tipo bem comum, esse Marcelo, vulgarmente alçado à condição de verdadeiro, por gente que confunde violência com honestidade.

E a tal Gyselle, posando de pobre menina nordestina problemática, alvo da piedade e da compaixão de todos. Nesse tal Big Brother, a lógica típica da brasilidade é sempre vencedora: coitados e imbecis suscitam simpatia, como se mediocridade e estupidez fosse algo a ser premiado. A moça, que é linda de morrer, passou dias e dias quieta, dormindo, isolada do mundo. Tão bruta e violenta quanto o tal Marcelo, só abriu a boca para destratar quem quer que fosse. E, no entanto, sua imagem inquebrantável é de uma coitada, excluída, verdadeira pessoa.

Coisa esquisita essa conversa toda sobre quem sejam Marcelo e Gyselle e sei lá mais que outros que ali estão. Pessoas se arvorando conhecer a essência dessa gente. Pessoas argumentando com outras sobre quem tem a verdade sobre essas pessoas. Um julgamento instaurado, no qual cada um fala a partir de uma certeza baseada em nada, sobre alguém que não existe, defendendo um ponto de vista absurdo a partir do qual determina quem é melhor que quem.

Nesses Big Brothers, eu estranhamente sempre gosto das pessoas mais comuns e mundanas, aquelas que nem chegam a chamar a atenção do público, que não despertam paixões e não encarnam nada. São as mais interessantes, mais cotidianas e vulgares, lembrando-nos que é dessa mediocridade que somos todos feitos. Meus favoritos nunca ganham o Big Brother, pois são humanos demais. Tão humanos quanto esses tais Marcelo, Gyselle, Rafinha… mas sem a purpurina das máscaras que recaem sobre eles, transformando-os nesses arremedos de “heróis do Brasil”. Pois, se precisamos desse tipo de heróis… que vergonha!

Gosto da tal Natália, do tal Marcos, da tal Tathiana… tão comuns, bobinhos, sem graça… Tão divertidos em seu dia-a-dia comezinho de cozinhar, nos papos bestas, na mediocridade de vidas vazias, meio tolas, em busca de sabe-se-lá-o-que… Tão bobos quanto nós mesmos e, talvez por isso, tão desapercebidos, que nosso povo nunca digere bem ser confrontado com sua real estupidez. Prefere acreditar-se e projetar-se no glamour dos papéis estereotipados, nos coitados miseráveis que não o são, nos excluídos que excluem, nos verdadeiros que violentam. Que gente é essa que somos, com essa avidez em julgar os outros, essa prepotência em decidir que sabemos quem é melhor, quem serve e quem não serve? Que gente é essa que se espelha tanto assim em um programa que promove, acima de tudo, a idéia de que gente – quando não nos agrada – pode ser destratada, odiada, descartada e eliminada?

Talvez seja por isso que esse tal de Big Brother tenha funcionado tão bem aqui no Brasil, sob os auspícios da Rede Globo, pois que promove uma mentalidade de intolerância, de extermínio da diferença, de ódio e de preconceito assustadores, em pleno horário nobre, com recordes de audiência. Talvez isso nos dê uma idéia de que tipo de gente somos, lá no fundo, no recanto mais podre, preconceituoso, nazista. Uma gente assustadora.

Não sei se é a tal Rede Globo de televisão que faz tanta questão de transformar tudo em fórmula, dando pouca chance para que um reality show possa fazer tanto quanto possível jus a seu nome, retratando a monotonia e a banalidade em que vivemos. Ou se é a assunção de que banalidade não interessa a ninguém e que é melhor perpetuar a ilusão de que vivemos em uma vida de festas, finais de novela e outras dessas bobagens que só servem para fundir a cabeça dos mais desavisados. Ou se o absurdo mesmo está em tranformar tudo isso em discussão, em dar tamanha importância a um programa e a pessoas que tornam-se capas de revista, celebridades instantâneas tão rapidamente esquecidas quanto a rapidez da fama que experimentaram. De todo modo, esse tal Big Brother – como qualquer programa trash desses que me interessam demais por serem absurdamente toscos e francos, na sua abstinência da baboseira hollywoodiana com a qual disfarçar suas evidências – coloca a nu os valores e a ética de uma sociedade inteira, nos seus mais sórdidos detalhes, mostrando bem o quanto, como povo, somos capazes de acreditar em grandes mentiras assentadas sobre um nada e, a partir delas, o que podemos fazer uns com os outros.

Belo programa, esse Big Brother. E tem ainda quem ache que é o caso de dar risada…

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3 respostas Até agora ↓

  • De nossa capacidade de acreditar em mentiras deslavadas… « Breathe, inhale, exhale… // 24/03/2008 às 11:52 am | Responder

    [...] alerib who? ← Esse tal de Big Brother… [...]

  • joaogrando // 26/03/2008 às 5:37 pm | Responder

    Sabe que tudo o que falaste (e bem falaste) é verdade.
    Porém a origem desse “problema” todo é o público, é o que o público reflete: sempre satisfeito com o formato, sempre julgando com critérios hipócritas etc.
    Porque se bem usado, acho o BBB um bom passatempo. E é só. Vejo-o até com otimismo em certos aspectos.
    O grande problema é a força com patamar de fenômeno que ele atingiu no Brasil.

  • alerib // 01/04/2008 às 12:27 pm | Responder

    João,

    Concordo contigo. O BBB é um ótimo passatempo e é só a isso que ele serve ou deveria servir. Parece que ele tem mais importância do que merece aqui no Brasil, o que me faz pensar que gente somos a dar tanto valor a um reality show…

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