Breathe, inhale, exhale…

De nossa capacidade de acreditar em mentiras deslavadas…

24/03/2008 · 2 Comentários

… ou do porquê eu gosto tanto do Ferreira Gullar que escreveu, ontem, na Folha:

E por falar em porradas…

Quando Lula afirma que inventou a roda, sabe que os bem informados não o levarão a sério

A FRASE do Lula, afirmando que “se porrada educasse, bandido saía da prisão santo”, deixou muita gente chocada. É que, segundo aquelas pessoas, uma expressão tão chula não deveria ser usada por um presidente da República.
Mas é que Lula faz isso de propósito, ainda não perceberam? Há ocasiões em que ele finge ser gentleman, usa até palavras eruditas, e há outras em que faz questão de mostrar que veio do povo, que ele é povo. Este ano é um ano eleitoral e Lula, que nunca desceu do palanque, vai aproveitando as oportunidades para mobilizar seu eleitorado. Esperto, alega que não é candidato para assim justificar o programa Territórios da Cidadania, que vai beneficiar 24 milhões de pessoas e carrear votos para seu partido e os partidos aliados. Planta os alicerces da campanha presidencial de 2010, lance decisivo para o seu futuro político. Já imaginou se o candidato dele perde as eleições? Isso não vai permitir, nem que seja a porradas.
Lula não dorme de touca. No final do ano passado, já lançara um programa que beneficia jovens em idade de votar e em seguida aumentou a dotação do Bolsa Família. Lembram-se do que ele disse quando sentiu que a CPMF ia acabar? Afirmou que a oposição -que é inimiga do pobre, claro-, cortando R$ 40 bilhões do orçamento, ia deixar sem dinheiro o Bolsa Família e a Saúde. Defensor dos desvalidos, esbravejou, gesticulou. E o que aconteceu? Deu mais dinheiro para o Bolsa Família e inventou agora esse programa de ajuda aos pobres do campo. O lançamento de cada programa em cada município ele faz pessoalmente e diz que não está em campanha.
Sem compromisso com a verdade, afirma o que lhe convém. Outro dia disse, depois de insultar o Judiciário: “Quando estavam na oposição não governaram e agora querem me impedir de governar”. Ninguém nunca governou o Brasil, só Lula. Tem a coragem de afirmar que foi ele quem acabou com a inflação, quando todo mundo sabe que a inflação foi controlada graças ao Plano Real e a medidas complementares como o superávit primário e a Lei de Responsabilidade Fiscal. Lula e o PT se opuseram a essas medidas: Lula chegou a afirmar, então, que o Plano Real era uma jogada eleitoral que ia durar só até o fim do ano; que o superávit primário era para beneficiar os banqueiros internacionais e, quanto à LRF, tentou impedir-lhe a aprovação tanto na Câmara como no Senado; não o conseguindo, entrou com uma ação no Supremo Tribunal para sustar-lhe a aplicação.
Opôs-se ferozmente à privatização das telefônicas, graças à qual, hoje, dezenas de milhões de brasileiros possuem um celular. Chegou a dizer que, se fosse eleito, iria reestatizar as telefônicas e todas as empresas que haviam sido privatizadas. Como as privatizações deram certo, calou-se e agora privatiza estradas, usinas, portos, rindo das antigas bravatas, de quando era oposição.
Lula é um populista típico. Quando afirma que inventou a roda, sabe muito bem que as pessoas bem informadas não o levarão a sério. Mas ele não fala para essas pessoas e, sim, para as que, beneficiadas por ele, acreditam em tudo o que diz. Do mesmo modo age o Maluf, quando afirma que a assinatura no documento que veio da Suíça, provando que a conta é sua, foi falsificada por seus inimigos. “Mas o senhor tem inimigos na Suíça?”, alguém perguntou. E ele: “Tenho inimigos em todo canto”. E os malufistas dirão: “É mesmo, ele tem inimigo em todo canto”. Sim, porque Lula e Maluf, como se sabe, são perseguidos por aqueles que odeiam pobres e falam uma língua em que não existe a palavra “porrada”.
Usar palavras chulas não é o pior do Lula, menos ainda neste caso, já que “porrada” deriva de “porra”, que significa “cacete”. Logo, “porrada” não é nada mais do que “cacetada”. É que, com o tempo, ela adquiriu outras conotações, até mesmo obscenas. Por isso que, muitos anos atrás, quando aqui chegou um embaixador venezuelano cujo sobrenome era Porras y Porras, criou-se, por assim dizer, um impasse diplomático. Já imaginou, no Itamaraty, anunciar-se a presença de um embaixador com aquele sobrenome? O jeito foi trocá-lo por Parras y Parras.
Para quem fala espanhol, a palavra “porra” não tem conotação obscena, como tem para nós, tanto que, no Peru, um dos santos mais adorados é San Martín de Porras, também conhecido como San Martín de Porres. Quando estava exilado em Lima, mandei uma nota para o “Pasquim” brincando com o nome do santo. Aliás, a nota era dirigida particularmente ao Jaguar (”Confesso que Bebi”), menos pelas “porras” do que pelos “porres”.

Copiado e colado, já que tem muito a ver com aquilo que escrevi sobre o BBB 8 e nossa infinita capacidade de comprar mentiras por verdades e ainda defendê-las com atitudes de fanáticos…

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2 respostas Até agora ↓

  • joaogrando // 26/03/2008 às 5:50 pm | Responder

    Grande Gullar. Deve-se sempre ouvi-lo. Gostei da tag “populismo”.
    Agora imagina se eu lhe dissesse: “deixa o homem trabalhar…”

  • alerib // 01/04/2008 às 12:25 pm | Responder

    João,

    Sim, sim, mas ‘o homem’ está trabalhando, não? Ou, enfim, fazendo campanha às nossas custas há uns tantos anos. De todo modo, acho que faz parte da democracia que ele trabalhe e que cada qual pense e comente o que quiser a respeito, pois é bom que as pessoas possam refletir e formar suas opiniões próprias.

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