Na psicanálise, pouca atenção foi dada para a vertiginosa mudança na constituição da subjetividade decorrente do desenvolvimento tecnológico e do uso da tecnologia como mediadora das relações sociais. Basta atentarmos para a diferença de lugar que as relações estabelecidas via internet ocupavam nos anos 90, quando a distinção entre virtual e real hierarquizava esses dois modos de encontro, em uma cultura na qual o ápice da comunicação pela rede se dava através da troca de e-mails, e o que ocorre nos dias de hoje quando, entre blogs, fotologs, msn, orkut, youtube, second life e afins, a divisão entre real e virtual perde o sentido, em um mundo cada vez mais mediado pela tela e suas funcionalidades, para entendermos que alguma coisa vem se modificando profundamente, tanto no estabelecimento das relações interpessoais quanto, e em relação direta com isso, nos processos de subjetivação.
As relações virtuais escaparam para o mundo real há quase uma década. Real e virtual são nomeações que não fazem mais qualquer sentido e é, então, possível dizer: ‘falei com fulano ontem’ de maneira que ‘falei’ pode se referir a uma conversa no msn, pelo scrapbook do orkut, pelo fotolog, ao telefone ou, até mesmo, pessoalmente. Não há mais qualquer necessidade de especificar onde o diálogo se deu, nem de hierarquizá-lo como real ou virtual. Falei. Ponto.
Não é difícil encontrar, no senso comum ou nas reflexões no meio psicanalítico, trabalhos que tenham feito alusão a essa interpretação do advento da internet e afins como promotores exclusivamente de uma existência ensimesmada. Mas tal veredicto está longe de encerrar a questão, ou até mesmo de abordá-la por seu viés mais interessante. Que subjetividade se constitui nessas condições, nesse caldo de tecnologia facilitador e impedidor de encontros? Como o que antes era isolamento do indivíduo no seu próprio mundo se tornou, agora, a possibilidade de conexão e estabelecimento de relações?






