Breathe, inhale, exhale…

Por que é divertido…

09/05/2009 · 6 Comentários

… visitar as galerias de arte.

Confesso: durante muito tempo eu não entrava em galerias para ver exposições por constrangimento, vergonha, ou por achar estranho entrar em um lugar cuja serventia é principalmente comercializar algo se não vou comprar nada. Conheço muita gente com a mesma dificuldade. Muitas galerias não ajudam com sua pose pretensiosa e nada welcoming. Por sorte gente próxima e querida me arrastou para fora desse indisposição e, nesse momento NYC, tenho visto mais exposições em galerias do que em qualquer outro espaço expositivo.

Nova Iorque tem um número absurdo delas, espalhadas por todos os cantos da cidade, mas o bairro de Chelsea é o que concentra a maior quantidade de galerias, todas em galpões imensos reformados, a maior parte entre as avenidas 10 e 11. Basta descer por volta da Rua 19 e subir os quarteirões até a Rua 28, mais ou menos entrando em todas as portas e subindo em muitos prédios e você terá visitado uma amostra significativa do que se produz de melhor em arte contemporânea não apenas neste país, como no mundo todo. E, aqui, essa peregrinação parece ser um hábito adotado por muitos locais e muitos turistas, já que as andanças de galeria em galeria são acompanahdas de muitas carinhas que você começa a reconhecer a cada porta atravessada. Meaning: galleries tour é algo a se fazer nesta cidade.

Mais alguns highlights galerísticos, entre os vários já citados:

Trisha Brown na Sikkema Jenkins & co. traz, além de vídeos com suas performances antigas, uma série de desenhos que são puro movimento, pura dança. Delicadeza absoluta.

Derek Jarman na X-initiative, que é um projeto sem fins lucrativos e traz uma coletânea de filmes em super-8 inacreditáveis exibidos ao longo do mês de maio. São imagens desconcertantes, sombrias, sobrepostas, repletas de símbolos e de repetições, em que uns filmes são retomados em outros, acompanhados do som experimental de músicos contemporâneos do cineasta. Não há como ficar mais intenso do que isso.

Mika Tajima, com “The extras”, uma interessantíssima instalação entre quadros, espelhos, luzes e vídeo como um set de filmagem, também na X-initiative, e Christian Holstad, com “Light chamber”, uma cômica instalação no telhado, completam de modo instigante o belo contexto organizado para essa exibição dos filmes de Jarman.

Duane Hanson na Van de Weghe Fine Art com suas “esculturas” hiperrealistas dos americanos médios comuns, aquelas pessoas pelas quais se passa sem perceber, congeladas em um momento banal de suas vidas e tornadas arte. Ácido.

Liao Yibai na Mike Weiss Gallery, com suas esculturas de símbolos americanos em chineses em “Imaginary Enenmy”, com um senso de humor para criticar os confrontos sino-americanos. Os respectivos presidentes saindo de suas notas de dólar e yuan com luvar de boxe para lutarem é uma metáfora impagável do que se criou como uma rivalidade ~mais mítica do que factual.

Yayoi Kusama na Gagosian Gallery da Rua 23. Com suas bolinhas coloridas em telas gigantes agora transpostas para enormes abóboras salpicadas de pontos pretos enfeitando o exterior da galeria, Yayoi Kusama surpreende muito com a instalação “Aftermath of obliteration of eternity”, em que as cômicas bolinhas dão lugar a uma sala escura repleta de pequenos leds postos em lanternas a várias alturas, refletidos em paredes de espelhos e na água que ladeia a plataforma pela qual se entra na instalação. Um infinito pontilhar de luzes piscando transporta o espectador para uma noite iluminada e escura. Lírico.

Yayoi Kusama

Jeff Bark, na Charles Cowles Gallery, com suas fotos perturbadoras de pessoas estranhas cujos rostos nunca se vê, compostas como mobiliário e suas mobílias compostas como pessoas, criando um ar decadente, colorido e perturbador de bizarrices surreais.

Albert Oehlen, que tem duas exposições na cidade, suas colagens de pinturas enormes, posteres e manchas de tintas exibidas na Luhring Augustine e suas pinturas feitas por computador na Skarstedt Gallery no Upper East Side, muito atual e provocativo em suas apropriações e desapropriações na pintura.

Robert Longo na Metro Pictures Gallery, com enormes painéis feitos com giz, o que dificulta muito o desenho e, ao mesmo tempo, dá uma extraordinária impressão quando ele acontece com a habilidade de Robert Longo. Os cinco painéis em que se transpõe a imagem de uma missa sendo rezada iluminada pelas luzes vindas de uma janela de uma catedral gótica são para serem vistos de joelhos, como o efeito que as próprias catedrais góticas causam, ainda mais quando se tem a sorte de assistir uma missa em uma delas. Não à toa a exposição chama-se “Surrendering the Absolutes”. O chapéu de cowboy flutuando num espaço vazio, as paisagens bucólicas e até um totem gigantesco todo negro estão ali, ao longo da exposição. Excelente.

robert longo

Nota gastronômica:

Peep Soho traz delícias thais e drinks exóticos em clima festivo no bairro ainda mais charmoso de Nova Iorque. E o peep show é, na verdade, a vista do banheiro para fora dele. Imperdível.

E o Bar Pitti, no Village, continua servindo uma apetitosa e leve comida italiana, regada a muito movimento, muita badalação e muito barulho.

Os lugares mais divertidos para comer e beber em Nova Iorque são muito, muito barulhentos, misturados de música e a festiva falação americana.

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Mais dicas de Nova Iorque 2009:

Bares, baladas e arte: aqui.
Galerias de arte e notas gastronômicas no final: aqui.
O tour de galerias em Chelsea e um excelente restaurante japonês ao final: aqui.
Ver Woody Allen cara-a-cara tocando no luxuoso Carlyle: aqui.
As revelações musicais que tocam na noite novaiorquina e as exposições que acontecem nos melhores museus: aqui. De quebra, uma nostálgica visita ao P.J.Clarkes.
As badalações do bairro agora mais interessante da cidade: aqui. Comida, bebida, galerias e museus…

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