… primeira nota mental: nunca vir ao Rio sem um caderno. Nunca. Em nenhuma circunstância. É quase uma violência. Alguns necessitam de uma máquina fotográfica, outros de papel e lápis, outros de filmadora. Para mim é imprescindível um caderno diante do Rio.
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As pessoas andam no saguão do aeroporto como autômatos em câmera lenta ao som de Coldplay. Um videoclipe. Uma coreografia. Adoro observar as pessoas nesses não-lugares, um cenário, uma cena que se desenrola para ninguém. Adoro a pesada e melancólica fragilidade humana estampada em todos os rostos e todos os corpos. Os gestos, cada movimento, cada expressão uma máscara sem nada por detrás. Nada a ser desvendado, apenas a cena.
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Todos teclando seus celulares, imersos em suas bolhas como eu na minha magnífica bolha de iPod, que vontade de gritar para ver se todas as bolhas estouram e as pessoas levantam seus rostos e seus olhares por um momento.
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Meu caderno é minha dor. Uma dor funda, mas não excruciante.
Queria ver a vista de volta da viagem…
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As nuvens sobre o azul de céu e mar desenhando no ar uma paisagem sempre inédita não me olham de volta. São indiferentes à minha existência. Não tenho existência para nuvens, céu e mar. Sou um nada absoluto para esses desenhos rasgados no ar. Não me desespera. Não me dói que ilhas ali embaixo assentadas na água nunca venham a ter notícias da dor e do júbilo que me causam por sua mera existência. A paisagem da janela do avião é uma das preciosidades conquistadas ao longo da vida, um dos maiores segredos, todo o tumulto traduzido nessa imensidão quase ofensiva. Impossível haver tanta beleza quanto nas nuvens espessas amarrando um topo de montanha até o mar, soltando-o lentamente até se tornarem fofas, um mergulho das nuvens na montanha. Aposto que nuvens mergulham nas montanhas e se entranham no seu verde como se encarnassem.
As nuvens querem encarnar, é isso.
Nuvens são feitas de nada e se espessam até se encarnar em montanhas. Um desejo absurdo de ser carne, de sentir carne, de ser viva.
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